Tambores na Rua... O grupo Mandela e o Coletivo AfroCaeté promovem batucada no Jaraguá.



Domingo, 05 de fevereiro, às 15h, no barracão do Coletivo AfroCaeté

 O Coletivo AfroCaeté e o grupo Mandela promovem batucada no Jaraguá
Venha batucar conosco
Traga seu Axé!

Carta Aberta dos religiosos de Matriz Africana à sociedade alagoana



No dia 08 de Dezembro de 2011, segundo as nossas tradições, uma data reservada ao culto de Iemanjá, orixá das águas, nós que fazemos parte dos cultos religiosos de matriz africana naquele dia, nós, religiosos de matriz africana da cidade de Maceió e as casas religiosas situadas nos interiores, fomos surpreendidos com uma situação de uma profunda humilhação, quando ao chegarmos para a celebração das nossas oferendas sagradas nas praias de Jatiúca e Ponta Verde , nós nos deparamos tanto com um espaço de segregação física – restrito da balança do peixe até o final da praia da Pajuçara -, bem como ainda, com a determinação de um horário restrito de celebração de nossas cerimônias determinado pelas autoridades responsáveis pelas medidas disciplinadoras, estipuladas pelos mesmos das 7 horas da manhã até as 8 horas da noite. Ambas as medidas foram determinada pela Prefeitura da Cidade de Maceió através da Fundação Cultural da Cidade de Maceió, na pessoa da Sra. Paula Sarmento, e pela direção Secretaria Municipal de Convívio e Controle Urbano, na pessoa do Sr. Galvaci de Assis, sendo que, os tais órgãos, para a concretização de tais “medidas disciplinadoras” solicitou o apoio disciplinador e repressivo do aparato tanto da Guarda Civil Municipal, bem como ainda, da Polícia Militar de Alagoas.

Alagoanos, a situação que todos nós religiosos de matriz africana fomos submetidos naquele dia, foi algo vergonhoso e humilhante, e, mais ainda quando estamos na véspera de completar exatamente cem anos da Quebra de todos os terreiros de candomblé de Alagoas ocorrido em 1912, fato que, não voltou a acontecer no dia 08 de Dezembro de 2011, em virtude da intervenção nos bastidores de membros do Governo do Estado junto ao comando da Polícia Militar do Estado de Alagoas, alertando-lhes para a fragrante violação da Constituição Federal e as possíveis conseqüências da violação.

Diante do acontecido, nós religiosos de matriz africana que também fazemos parte da herança da República dos Palmares e que atualmente contamos com algo em torno de 3000 casas de culto espalhados por Alagoas, não podemos ficar silenciados e humilhados diante da imensa vergonha com que nossos irmãos foram tratados no dia 08 de Dezembro do presente ano quando, ao chegarmos aos locais de realização das nossas cerimônias, fomos vigiados e monitorados por pessoas completamente alheios ao nosso universo religioso, os quais, segundo declarações à imprensa, tinham como principal objetivo “disciplinar as nossas atividades”.

Neste sentido é que destacamos enquanto descendentes de escravos, também fazemos parte da herança da República dos Palmares e por tudo isto, nós não podemos ficar silenciados e humilhados diante da imensa vergonha com que nossos irmãos foram tratados no dia 08 de Dezembro.

Vale ressaltar ainda que, a “medida disciplinadora” levada a cabo pelos referidos órgãos, Fundação Cultural da Cidade de Maceió e pela Secretaria Muncipal de Convívio e Controle Urbano, em razões de seus alheamentos a respeito das nossas tradições, não levou em conta o fato de que, tanto as praias, bem como ainda, as águas marinhas, para nós religiosos de matriz africana, serem ambos, lugares de uma memória sagrada e enquanto tais, invioláveis por direito constitucional.

E então perguntamos: disciplinar o que? Disciplinar a partir de que? E com que direito estes órgãos – que deveriam cumprir o seu papel de proteger a nossa liberdade religiosa – podem se arvorar em disciplinar as nossas crenças, os nossos cantos e a nossa liberdade de expressão religiosa? Afinal, o que eles sabem de nosso Deus e o que eles entendem dos nossos Orixás e das nossas tradições?

Alagoanos de um modo geral e da cidade de Maceió em particular, o que ocorreu no dia 08 de Dezembro não foi apenas uma violência contra as nossas tradições sagradas, mas, antes de tudo, foi uma violação da constituição no que se refere a liberdade religiosa garantida pela Constituição do Brasil e, neste sentido, ao tempo em que viemos através desta destacarmos a violação da Constituição ocorrida no dia 08 de Dezembro do corrente ano, estamos atenciosamente solicitando de toda a população da cidade de Maceió através de suas instituições, um generoso esforço no sentido de divulgação, tanto da presente Carta Aberta, bem como ainda, de um olhar mais atento para a importância das nossas tradições afro-alagoanas, haja visto que, no dia 02 de Fevereiro de 2012 marcará o centenário da trágica destruição dos nossos espaços sagrados, data que, entrou para a história como o dia do “Quebra do Terreiros de 1912”.
Sem mais, atenciosamente subscreve o presente documento e convocam as seguintes entidades:

FEDERAÇÃO DOS CULTOS AFRO UMBANDISTA DO ESTADO DE ALAGOAS, CENTRO AFRO OXUM OMIN TALADÉ, CENTRO AFRICANO SÃO JORGE, PALÁCIO DE AIRÁ, ILÊ AXÉ LEGIONIRÊ, NUCAB – IYA OGUNTÉ, CENTRO ESPÍRITA SÃO JORGE, CENTRO AFRO BRASILEIRO OGUM DE NAGE, FRETAB - FEDERAÇÃO ZELADORA DAS RELIGIÕES TRADICIONAIS AFRO-BRASILEIRA EM ALAGOAS, FEDERAÇÃO DOS CULTOS ÁFRICOS DE ALAGOAS, ASSOCIAÇÃO CULTURAL E SOCIAL AFRO BRASILEIRA OFA OMIM, ABASÁ DE ANGOLA OYÁ IGBALÉ, FEDERAÇÃO ALAGOANA ESPÍRITA CAVALEIRO DO ESPAÇO.

Com o apoio das entidades abaixo descriminadas:
UFAL, UNEAL, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), COLETIVO AFROCAETÉ, GUESB, ANAJÔ, NÚCLEO CULTURAL ZONA SUL DE MACEIÓ, CEPA QUILOMBO E FEDERAÇÃO ALAGOANA DE CAPOEIRA, COJIRA, DCE/UFAL E ARTICULAÇÃO DOS GRUPOS DA CULTURA POPULAR AFRO-ALAGOANA.

10 de janeiro de 2012 - Protesto contra intolerância religiosa



Cresce mobilização de protesto contra intolerância religiosa
      
Entidades representativas das religiões de matriz africana, do movimento estudantil, da sociedade civil organizada, instituições governamentais e movimento negro alagoano, voltaram a se reunir nesta quarta-feira (28), na sede da Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos, para dar início aos encaminhamentos com vistas a intensificar a mobilização de protesto contra a intolerância religiosa.

Além de atos políticos e ação judicial contra a Prefeitura de Maceió, eles cobram uma retratação do Município por ter estabelecido tempo e espaço para as oferendas à Iemanjá no dia 8 deste mês, inclusive ameaçando os religiosos com uso da força caso a decisão fosse desobedecida.

As atividades de protesto começam no dia 10 de janeiro com a denúncia formal ao Ministério Público, acompanhada de ato político e divulgação de uma carta aberta. Também está sendo organizado um grande cortejo para marcar a entrega da interpelação judicial, audiência na Câmara de Vereadores, além de um grande ato público em fevereiro, para lembrar o “Quebra de 1912” e denunciar as perseguições que ainda hoje sofrem as religiões afrobrasileiras.

Os organizadores do movimento consideram que a decisão da prefeitura foi um ato de intolerância religiosa. Na opinião do coordenador nacional de formação dos Agentes de Pastoral Negros (APNs), e integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Cnpir), Helcias Pereira, o município feriu o Estatuto da Igualdade Racial, que menciona o direito à liberdade de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos de matriz africana, inclusive a celebração de festividades e cerimônias de acordo com preceitos das respectivas religiões.

Para o coordenador da Comissão das Minorias e Direitos Humanos da OAB/AL, advogado Alberto Jorge Ferreira dos Santos, as tradições devem ser respeitadas e mantida a liberdade de religiosidade negra. “Não negociaremos com a prefeitura o lugar nem o horário destas cerimônias”, enfatizou.

Já o vice reitor da Uneal (Universidade Estadual de Alagoas) e historiador Clébio Araújo, destacou que a atividade do dia 8 de dezembro para os terreiros não significa apenas uma homenagem, mas uma celebração religiosa que segue preceitos e não pode ser mudada de qualquer forma, o que fere o direito de liberdade religiosa.

Mobilização – As comissões de trabalho agora intensificam a mobilização junto a outras entidades dos movimentos sociais, sindicais e de outros segmentos no sentido de ampliar as adesões de apoio às manifestações.

Valdice Gomes 
Comissão de Jornalistas
pela Igualdade Racial (Cojira-Alagoas)
9951-9584

Festa de Iemanjá, 8 de dezembro de 2011 (Praia da Pajuçara - Maceió)



Na Festa das Águas


Edna Lopes- Educadora

"Alagoanos e alagoados, as restrições espaciais que a prefeitura de Maceió propõe para a manifestação dos cultos afro-alagoanos neste dia 8 de dezembro são emblemáticas da falta de sensibilidade cultural da administração da cidade. Maceió é uma cidade tão mestiça, tão miscigenada como qualquer outra urbe brasileira. É um absurdo querer desconhecer ou restringir as manifestações de sua dimensão afro. O senhor prefeito deseja ser conhecido por ter vindo do povo e por dar espaço em sua gestão aos seus problemas, mas o que vemos é que esse povo reivindicado pelo prefeito é um povo inventado e não o maceioense real, é um povo sem especificidade, sem cultura própria, sem iniciativa política, é um povo submisso às elites. Mas o povo real vai se levantar, está ganhando consciência cultural e política, já conta com novos mediadores culturais e políticos, e saberá dar o troco hoje e nos próximos embates, como na eleição do ano que vem. Nem o Quebra dos Terreiros, em 1912, conseguiu acabar com a resistência das religiões afro-alagoanas, mesmo que o Xangô tenha passado a ser rezado baixo por décadas. Hoje seria um bom dia para a desobediência civil generalizada às restrições claramente discriminatórias impostas pela prefeitura, hoje seria um bom dia para que a rebeldia atávica do povo alagoano, que já se encarnou em Zumbi e Vicente de Paula, por exemplo, apareça em todo seu esplendor. Que os atabaques toquem alto e que um povo mestiço mostre a riqueza de suas crenças". Golbery Lessa via facebook de Ana Claúdia Laurindo

Depois de ler uma provocação como esta, quem, com seu juízo no lugar e em sã consciência ficaria em casa? Quem, que em algum momento de sua vida defendeu a livre expressão, o direito inalienável de professar sua fé - direito este afirmado na Constituição Federal, que parece ser desconhecida das autoridades de plantão da nossa cidade – não se sentiria desafiado a juntar-se ao real povo dessa cidade e defender esse e todos os direitos conquistados muitas vezes a custa do sangue e da vida de outros?

Cada vez que me pergunto por que a alegria, as expressões da religiosidade dos cultos de matriz africana, os paramentos, as músicas e as danças, provocam o temor e a intolerância de alguns, respondo-me que na raiz de tudo está o preconceito, a desinformação, o desrespeito com tudo que se refere e se aproxima do povo negro, mais da metade da população brasileira, que luta diuturnamente para ter respeitado seus direitos, para não serem ignorados e tratados com cidadãos de segunda classe.

Cheguei à festa no fim da tarde e me chamou a atenção a criançada que se divertia correndo na areia e no espaço dos shows. Elas, os pequenos Erês de sorriso confiante e nenhum temor em demonstrar sua alegria traduziam em mim o sentimento maior de um momento como aquele: a celebração da vida, o respeito ao direito de todos e de cada um deveria ser o mandamento principal para o convívio do seres dito humanos, nessa dimensão.

Fui recebida com um abraço e um sorriso de um deles e logo o convidei para me acompanhar até a praia para fazer umas fotos. A maturidade de Rafael do alto dos seus nove anos me animou:-“Não é um absurdo, tia Edna, proibir as pessoas de fazerem suas oferendas e tocarem aqui na praia depois da “5 horas”? “O que é que tem demais fazer isso?”

- “É sim, Rafa. É um absurdo e um desrespeito. E não tem nada demais não. Apenas ignorância desses que proíbem...”

O sentimento de Rafael, filho da amiga Luciana e do amigo e colega de trabalho, o jornalista Mauro Fabiani e o meu, era o de centenas de pessoas que ali estavam. Nos pronunciamentos nos intervalos das apresentações culturais, lideranças religiosas, intelectuais, lideranças de grupos comunitários e culturais manifestaram sua indignação para com a atitude intolerante e desrespeitosa das autoridades que limitaram o espaço e o tempo para oferendas e toques na orla de Maceió, inclusive com ameaça de recolhimento dos instrumentos.

Impossível não se indignar ao lembrar do Quebra dos Terreiros em 1912, quando no dia 02 de fevereiro, uma Yalorixá* (Tia Marcelina) foi assassinada por policiais a serviço da elites desse estado.Os terreiros foram destruídos e seus adeptos perseguidos e silenciados. Será que 99 anos depois, a história vai se repetir?

O sentimento de Rafael e o meu era o de centenas de pessoas que ali permaneceram até a última apresentação, o show da sambista Leci Brandão (Maravilhoso!), e seguiram em cortejo até a feirinha da Pajuçara, afirmando o propósito de reivindicarem o direito de expressar sua cultura, seu credo religioso e não se intimidarem com “autoridades” que pensam e agem como se a lei fosse uma corda esticada que pode ser levantada e abaixada seguindo suas conveniências.

Na Festa das Águas, um sentimento bom de pertencer a essa parcela de povo que não se dobra. Pude rever amigos e amigas, pessoas queridas que têm, como eu, compromisso com a militância pela vida, não apenas pregando tolerância mas respeitando todos e cada um no exercício do seu direito.

* sacerdotisa e chefe de uma casa de Axé (templo da religiosidade de matriz africana)

Olhem as fotos e vejam que belo cenário para uma celebração.


Quem quiser saber mais veja o documentário O Quebra do Xangô, de Siloé Amorin, que mostra as consequências do episódio para a vida e a cultura alagoana, além da tese "Xangô rezado baixo: um estudo da perseguição aos terreiros de Alagoas 1912", de Ulisses Rafael, Doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ, disponível em PDF nesse link:


Fonte: Recanto das Letras (http://www.recantodasletras.com.br/)

Festa das Águas



A articulação dos Grupos da Cultura Popular e Afro-Alagoana e a Secretaria da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos estarão realizando no dia 8 de dezembro, às 15h, no início da Praia de Pajuçara, uma grande festa em homenagem a Iemanjá, a Festas das Águas.

Programação:
 
Arê Iorubá (Núcleo Cultural da Zona Sul)
Maracatu Raiz da Tradição (Abassá de Angola de Oyá Igbalé)
Inaê (Guesb)
Afoxé Oju Omin Omorewá
Coletivo AfroCaeté 
Leci Brandão
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