sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Águas de Oxalá


por Thiago Bianchetti*

Um dia Oxalufã (também conhecido como Oxalá), que vivia com seu filho Oxaguiã, resolveu viajar a Oyó para visitar seu outro filho Xangô. Antes de partir resolveu consultar o oráculo de Ifá para saber sobre a viagem. Assim, procurou um babalaô para que deitasse os búzios para ele; o mesmo o fez e ao ler o jogo determinado por Ifá viu que ele correria perigo na viagem e recomendou-lhe não prosseguir com ela, pois seria desastrosa e acabaria mal. Mesmo assim, Oxalufã, por teimosia, resolveu não renunciar à sua decisão. Então o adivinho aconselhou que levasse consigo três panos brancos, limo-da-costa e sabão-da-costa e, ainda, lhe disse para aceitar fazer tudo que lhe fosse pedido no caminho sem reclamar de nada, acontecesse o que acontecesse. Seria uma forma de não perder a vida, advertiu o oráculo. Em sua caminhada, Oxalufã encontrou três Exus. O primeiro que encontro foi o Exu Eledu, que lhe abraçou e pediu para que o ajudasse a levantar um saco com carvão, Oxalufã lembra-se do jogo de Ifá, sem poder dizer não e sem reclamar, ajuda a Exu. No entanto, Exu, sempre brincalhão e trapaceiro, deixou o lado furado do saco para o ancião, e ao suspender o saco com rapidez o carvão sujou toda a roupa branca de Oxalufã; Exu cai em gargalhadas! O ancião, se controlando para não se contrariar, sai pacientemente da presença de Exu e procura um rio para se limpar. Toma banho e veste roupa limpa e, ao invés de lavar a que tinha acabado de sujar, assim como lhe sugeriu o babalaô quando aconselhou que levasse o sabão-da-costa, despachou-a ali mesmo. Oxalufã retorna a sua viagem e repentinamente lhe aparece o Exu Elepó que derrama sobre ele uma bacia de óleo de dendê, todo sujou da substância que mais detesta, lembra do sabão na sua cabaça, mas já não tinha uma roupa reserva para trocar e lavar a suja. Resolve prosseguir mesmo sujo. Como se não lhe bastasse os infortúnios, encontra com o Exu Aladi, que o deixa ainda mais sujo ao arremessa-lhe caroços de dendê. O velho não se desesperou e por três vezes suportou em silêncio as armadilhas de Exu. Oxalufã já muito exausto e sujo finalmente chega ao reino de Oyó que era regido pelo filho Xangô. Na entrada da cidade viu um cavalo perdido, que ele reconheceu como o cavalo que havia presenteado a Xangô. Tentou amansar o animal para amarrá-lo e devolvê-lo ao filho. Mas neste momento chegaram alguns súditos do rei à procura do animal perdido. Viram Oxalufã todo sujo e com o cavalo, daí pensaram tratar-se de um ladrão. Os guardas, contrariados com a possibilidade do furto, o maltrataram e o prenderam. Ele, sempre calado, deixou-se levar prisioneiro. Mas, por estar um inocente no cárcere, em terras do Senhor da Justiça, Oyó viveu por longos sete anos a mais profunda seca. As mulheres tornaram-se estéreis e muitas doenças assolaram o reino. Xangô desesperado resolve procurar um babalaô que consultou Ifá; descobre que um velho sofria injustamente como prisioneiro, pagando por um crime que não cometeu. Xangô correu para a prisão. Para seu espanto, o velho prisioneiro era seu pai. O rei ordenou que trouxessem água do rio para lavá-lo e ordenou que todos de Oyó vestissem branco em respeito. Pediu para que todos cultivassem o silêncio, pois era preciso respeitosamente pedir perdão ao patriarca. Xangô pessoalmente tirou toda a roupa suja e maltrapilha que Oxalufã tinha passado no cárcere e o banhou publicamente, em seguida o vestiu de branco e carregou o velho rei nas costa em sinal de respeito. Mandou preparar grande festa e o levou para homenageá-lo e todo o povo saudava Oxalá e todo o povo saudava Xangô com grande alegria. As coisas no reino de Oyó começaram a voltar à normalidade. Depois Oxalufã voltou para casa e Oxaguiã ofereceu um grande banquete em celebração pelo retorno do pai.

Baseados nesse mito de origem os adeptos afro-brasileiro realizam em várias partes do país a cerimônia das Águas de Oxalá em homenagem a divindade. No Brasil, por conta da repressão religiosa às entidades do panteão negro, Oxalá é sincretizado com Senhor do Bonfim, que é Jesus Cristo, por isso a cerimônia em reverência ao deus africano é realizada nas escadarias das igrejas de mesmo nome do santo católico em algumas localidades do país. A festa é muito famosa em Salvador-BA, por exemplo, onde adeptos saem em romaria até as escadarias da igreja, e onde o carnaval oficial é aberto só após a lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim.

Em Maceió a cerimônia já dura 9 anos (desde 2002), esse ano aconteceu no dia 09 de janeiro, onde adeptos da religião de matriz africana saíram em romaria do bairro do Jacintinho ao bairro do Poço até o local da igreja do Senhor do Bonfim daquela localidade. As Águas de Oxalá, carregadas em grandes alguidares (são potes de barro) pelos fieis afro-alagoanos, representam o banho de limpeza oferecido por Xangô a seu pai. O ritual acontece do lado externo da igreja, as escadas da igreja são lavadas em homenagem ao Orixá. O ritual religioso é organizado pelo Núcleo de Cultura Afro-Brasileira Iyá Ogun-té liderado pelo babalorixá Célio Rodrigues. Em 2011 o cortejo trouxe consigo centenas de pessoas, adeptos ou simpatizantes da religião no estado e de fora dele, onde o intuito maior era pedir a divindade um ano repleto de alafiá (felicidades), paz e sucesso. A festa acontece dividida em duas grandes partes, a primeira, acontece de forma mais reservada nos mais variados xangôs do estado desde os primeiros dias de janeiro, onde às obrigações espirituais secretas ao Orixá são feitas dentro do ambiente dos terreiros. A segunda parte, cerimonial público, acontece quando o adê (coroa) e o Opáxoró (bastão de prata) de Oxalá, símbolos de maior representatividade da divindade, é conduzido por iabás (sênior da religião) e omo (crianças), com seus axos (roupas) brancos em percurso ritual entoando cânticos a Oxalá. Alguns adeptos se posicionam sob um pano sagrado conhecido pelo termo iorubá Alá, o qual os cobre - como uma espécie de tenda - os objetos e pessoas consagradas ao Orixá durante o percurso; o Alá é uma metáfora que simboliza o grande ayê (céu) sobre as pessoas, e é sobre ele que os humanos vivem e cultuam seus deuses, assim os fieis saem em baixo do céu de Oxalá para pedir proteção junto à sua coroa. Em entrevista ao babalorixá Célio Rodrigues ao final da festa o mesmo contava que a lavagem das escadas da igreja representa uma forma de homenagear e relembrar um mito de origem da religião de matriz africana, onde a lavagem das escadas do Senhor do Bonfim representa a limpeza do palácio de Oxalá e a singela e justa homenagem de Xangô a seu pai. No tempo mítico esse cerimonial é tão importante que o próprio Xangô em homenagem ao ocorrido com pai adaptou em seu colar de contas vermelhas a cor branca característica de Oxalá.

Esse deus é o símbolo vital do Candomblé, trata-se de um Orixá fun fun para a religião de matriz africana, ou seja, divindade que estava nos primórdios de tudo na Terra, fez e acompanhou a criação do planeta e por ser tão idoso seu arquétipo, quando incorpora em seus filhos na Terra, mantém uma postura corporal curvada sobre os joelhos e anda bem lentamente como uma pessoa de idade avançada. Todos os Orixás relacionados com a criação são designados pelo nome genérico de Orixá Fun Fun. Junto com os demais Orixás fun fun do ayê, Oxalá criou a vida, mas a ele cabe a responsabilidade de sustentar a fecundidade do mundo. Por isso que quando no mito de origem enquanto o Orixá permanece preso a vida no reino de Oyó ia se dissipando rapidamente e só retorna a normalidade quando o mesmo é libertado, limpo e homenageado. Por isso que quando nas casas de axé a saudação Epa Bàbá é realizada se trata substancialmente da euforia em ter o ciclo vital mantido por Oxalá.

Epa Bàbá!
* Thiago é mestrando em antropologia e batuqueiro do AfroCaeté



Imagens de Juliana Barretto
 

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