quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ODÔ IYÁ, IEMANJÁ




No dia em que os católicos celebram Nossa Senhora da Imaculada Conceição, os seguidores de religiões de matriz africana vão à praia vestidos de branco e azul homenagear Iemanjá, a Rainha do Mar


Diego Barros (Jornalista)
Christiano Barros (antropólogo, batuqueiro do Coletivo AfroCaeté)

Especial para O Jornal (publicado no dia 7 de dezembro de 2008)

O cenário é o de uma cidade qualquer do interior de Alagoas: ruas sem asfalto, sem saneamento básico, esgoto a céu aberto, cães, gatos e galinhas atravessando a frente dos carros, crianças correndo de um lado para o outro. Mas o nome do bairro é Village Campestre, na periferia de Maceió. É lá que Rosineide Sousa da Costa, de 38 anos, mais conhecida como Mãe Rosa, mora e possui um terreiro, onde ela e outros seguidores do candomblé se reúnem regularmente para suas práticas religiosas.

A ialorixá Mãe Rosa, como são chamadas as sacerdotisas no idioma iorubá, uma das línguas que foram trazidas pelos escravos vindos da África, tem cinco filhos biológicos e outros tantos filhos-de-santo. Amanhã, 8, todos eles vão à praia de Pajuçara dançar e levar oferendas a Iemanjá, um dos mais populares orixás do Brasil, com milhares de seguidores de norte a sul do país. "Ela é o orixá da inteligência, das cabeças (ori, no idioma afro-religioso), das águas salgadas, protetora dos pescadores, senhora dos lares e é mãe de todos os orixás", lembra Mãe Rosa, ressaltando que o 8 de dezembro é um dia de agradecimento. Entre as oferendas que serão levadas à Rainha do Mar estão flores, mel, peixe, frutas, sabonetes e perfumes. Iemanjá é o útero de toda a vida, principal figura materna na tradição iorubá (Ymoja).

Durante as homenagens de amanhã, os filhos devotos de Iemanjá farão saudações dizendo Odô Iyá, que é um tipo de cumprimento à orixá de todas as águas. Haverá também rodas de samba e de capoeira. Uma vez manifestada em um de seus devotos, ela dança de forma majestosa, mexendo o corpo suavemente, sugerindo o movimento das ondas do mar.

A ialorixá Mãe Vera, também de Maceió, ressalta a importância de Iemanjá para os seguidores de religiões de matriz africana: "Quando Iemanjá está presente no terreiro, ela é tratada com um carinho especial, é como se chegasse uma senhora experiente, de muito saber em nossa casa. Todos dão atenção a ela, do mais jovem ao mais velho".

Iemanjá é um nome derivado de três outras palavras do idioma iorubá: yèyé (mãe), omo (filha) e ejá (peixe). Na época da escravidão no Brasil, os escravos que cultuavam Iemanjá eram perseguidos por suas práticas religiosas e, para tentar driblar essa perseguição, associavam Iemanjá a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Segundo o babalorixá (palavra do iorubá para definir os sacerdotes do candomblé) Pai Célio, formado em história e um dos pesquisadores do assunto, o orixá não tem figura humana, ele é apenas uma energia, uma força da natureza. "Se Iemanjá tivesse forma humana, ela teria arquétipo africano: uma mulher negra, forte, de seios fartos", detalha Pai Célio.

"Quando Olorum criou o planeta Terra, antes de qualquer coisa jogou muita água, por isso que na ideologia iorubá Iemanjá é a mãe das mães: 'Yèyé'. Foi dentro da água que surgiu a primeira idéia de vida na cosmovisão iorubana, e a primeira idéia de vida veio do peixe. O peixe passou a ser o 'Omo', o filho. E da água brota tudo", narra Pai Célio.

No terreiro de Mãe Rosa, no Village Campestre, são cultuados 18 orixás. Esse número varia de terreiro para terreiro. Mãe Rosa diz que durante as cerimônias, chamadas de toque, incorpora até cinco desses 18 orixás. São eles: Oxum, Oxossi, Xangô, Iansã e Iemanjá. Toda ialorixá e todo babalorixá têm um orixá masculino e um feminino, e os de Mãe Rosa são Oxum (feminino) e Oxossi (masculino). O primeiro deles é a divindade da água doce, da beleza, do amor e da fertilidade. O outro é o orixá das matas e da caça.

O início no candomblé – Mãe Rosa conta que sua mãe biológica também era ialorixá (mãe-de-santo), na época em que elas moravam em Palmeira dos Índios, região do Agreste alagoano. Ela lembra também que algumas décadas atrás o preconceito em relação às religiões de matriz africana era bem maior do que hoje. "Minha mãe só fazia o toque dentro de casa, trancada, e quase ninguém sabia. Aos domingos ela ia à missa e me levava junto, mas ela não era católica, era só pra disfarçar", relata, dizendo também que ela própria passou por alguns sacramentos do catolicismo: "Eu sou batizada, fiz Primeira Comunhão e Crisma, mas os meus filhos (biológicos) não são". Ela lembra ainda que sua mãe era também rezadeira, parteira e conselheira.
Mesmo com a mãe tendo sido uma seguidora do candomblé, Mãe Rosa diz que demorou a aceitar a religião. Ela conta que tinha medo quando sua mãe incorporava algum orixá e não gostava do preconceito que sofria na rua e na escola. "Me chamavam de filha da catimbozeira", recorda. Ela só aderiu ao candomblé aos 18 anos de idade. De lá pra cá, já foi iaô, nome dado aos iniciantes na religião, filha-de-santo e agora ialorixá.

Conforme descreve Mãe Rosa, para que um seguidor do candomblé se torne iaô, ele deve passar por um ritual, no qual fica alguns dias em camarinha – isolado dentro de um quarto, tendo contato apenas com o seu ialorixá ou babalorixá, recebendo os ensinamentos dos orixás e os segredos da religião. Após um período de cerca de sete anos, o iaô pode passar novamente pelo ritual e se tornar pai ou mãe-de-santo. Nesse caso, o período de isolamento é maior, em torno de 30 dias.

As forças da natureza – De acordo com o babalorixá Pai Célio, a religião de matriz africana cultua as energias da natureza, e não os espíritos. Em relação ao 8 de dezembro, ele tem uma opinião diferente: "A gente do candomblé não cultua santo, a gente cultua orixá. 'Ori' quer dizer cabeça, e 'xá' quer dizer energia. Nós temos os nossos dogmas, os nossos ritos e os nossos mitos. É importante explicar que Iemanjá não é Nossa Senhora da Conceição. Nossos ancestrais associaram algumas características dos santos católicos aos orixás", argumenta Pai Célio. Ele defende a desvinculação entre o orixá e a santa católica, mas acha importantes as manifestações do 8 de dezembro. "É uma quebra de paradigma na sociedade, um momento em que os religiosos vão expor a sua fé em público", afirma. De acordo com o babalorixá, durante as viagens nos navios negreiros, o corpo dos escravos que morriam era entregue a Iemanjá.

Sincretizada com Nossa Senhora devido à relação com a maternidade, Iemanjá possui grande prestígio e popularidade em todas as camadas sociais brasileiras. Segundo o pesquisador Edson Moreira, coordenador do Museu Quilombo, o sincretismo com Maria representa um exemplo de convivência religiosa. "Hoje é difícil a dissociação", diz, esclarecendo que Iemanjá não é Nossa Senhora. O sincretismo é fenômeno que existe em todas as religiões e também está presente na sociedade brasileira. Ele não descaracteriza a tradição e nem desmerece a capacidade dos praticantes de qualquer que seja a religião.

Grupos Culturais – Além dos atabaques que irão embalar os seguidores do candomblé durante o ritual religioso, grupos de percussão e batuque afro estarão presentes durante as festividades de Iemanjá na praia de Pajuçara.  Um dos objetivos desses grupos, que pretendem interagir com os adeptos e simpatizantes, é chamar a atenção para o preconceito historicamente construído e sustentado em nossa sociedade contra as manifestações afro-brasileiras. As atividades ficarão concentradas próximo à Praça Multieventos, a partir das 16h.
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