quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Coletivo AfroCaeté une tradição e modernidade – Joel Moraes



Cultura de raiz africana floresce em Alagoas, através da visão do grupo

A inspiração do Coletivo AfroCaeté provém de uma raiz ancestral, a cultura africana, mas o grupo não se limita apenas a sentar à sombra dessas tradições, também cultiva e produz novos frutos, unindo a dança e o ritmo da África com a criatividade própria de Alagoas.

Em atividade desde 2009, o Coletivo tem como proposta original conhecer e tornar conhecidas as diversas manifestações populares, em especial, as que unem o legado africano e a interpretação nordestina. Daí surge a característica marcante do grupo, a observação da fluidez cultural, a forma como a arte não permanece estagnada, mudando e crescendo, um organismo intelectual resultante de sucessivos encontros entre visões diferentes.

Atualmente, 50 integrantes participam das atividades, com a liderança do Ogan e percussionista Sandro Santana. Na sede, em Jaraguá, são realizados ensaios semanais nas tardes de domingo, ao som de instrumentos como a alfaia, a caixa de guerra, o gonguê, o agogô, o xequerê, o djembê, o atabaque e o pífano, entre outros. Durante o mês de outubro, o AfroCaeté realiza uma oficina de maracatu, buscando ampliar essa manifestação cultural em Alagoas.
Em entrevista exclusiva por email, o Coletivo fez jus ao nome, respondendo as perguntas coletivamente:

JM - Como surgiu e o que é o Coletivo AfroCaeté?

CAC - No contexto de surgimento do grupo estava um movimento de afirmação da identidade, de pertencimento a um lugar, não só como algo físico e espacial. A gente acredita que a identidade cultural e a noção de pertencimento a localidade se fortalece a medida que a gente solidifica os laços de ligação com o tradicional, com a cultura tradicional. A gente não acredita que cultura possa ser resgatada. Enquanto grupo a gente pretende celebrar essa modernidade, essa universalidade, essa dinamicidade que é identificada na cultura popular, na cultura tradicional, na cultura afro.

Antes de formar o grupo a gente vinha sentindo a necessidade de estar mais perto dos espaços de produção de cultura na periferia e, dos terreiros de candomblé que a gente considera verdadeiros centros de resistência da cultura africana no Brasil. Então a gente passou a não conceber que se destitua o batuque da cultura afro-religiosa. O Brasil, e especificamente Alagoas, tem uma dívida histórica com a cultura afro-religiosa, com as religiões de matrizes africanas, de um modo geral. Não é a toa que existe uma invisibilidade do batuque e das manifestações culturais de origem afro religiosa em Alagoas.

JM - O maracatu é considerado manifestação cultural pernambucana. Vocês concordam com essa definição ou vêem o legado africano como sendo maior que as fronteiras entre nossos estados?

CAC - Maracatu é uma manifestação da cultura popular. E cultura popular é do povo.   Atualmente o maracatu de Alagoas sofre influência do maracatu que é feito no estado vizinho. No passado, maracatus, afoxés e outras manifestações eram comuns nos terreiros de Xangô e Candomblé em Alagoas. Muitas manifestações foram extintas com a perseguição aos terreiros, principalmente após a infeliz ação conhecida como “o quebra de Xangô”, que teve seu ápice 1912 com a morte em praça pública de Tia Marcelina, ícone da Cultura Negra em Alagoas. Inclusive registros indicam que no seu terreiro existia um maracatu. As manifestações culturais de origem afro-religiosa que conseguiram resistir foram tachadas ou autodenominaram-se de folclóricas para continuar existindo. Isso aconteceu também com as práticas indígenas.

É importante frisar que cultura popular é dinâmica, em constante transformação, ela dialoga com a modernidade. A junção de elementos, o hibridismo presente em manifestações da cultura popular, sempre impressiona muito. Mostra o quanto é rica e complexa a cultura. Mudança é algo que não devemos nos preocupar. A gente tem mais é que celebrar a modernidade, a universalidade, a dinamicidade presente na cultura popular, na cultura tradicional, na cultura afro.

JM - Hoje, qual a situação do maracatu em Alagoas?

CAC - No próximo mês, será coroado o Maracatu Nação A Corte de Airá, ligado a uma Casa de Axé que está localizada entre o Sítio São Jorge e a Grota do Arroz, aqui em Maceió. Será um momento especial.

A gente tá vivenciando um novo e importante momento. Alguns grupos ressurgem em Alagoas. E esse fenômeno é positivo na medida em que vem acompanhado de conscientização e conhecimento das práticas ligadas a cultura negra. E da possibilidade da inserção da cultura negra em diversas classes sociais. Assim, os grupos atuais podem se tornar aliados na luta por respeito a diversidade, seja ela cultural ou religiosa.

Em Alagoas existe uma invisibilidade do batuque e das manifestações culturais de origem negra, sobretudo de origem afro-religiosa. No passado a sociedade tinha aversão aos afoxés e maratatus, por causa da associação com a vida religiosa, chegavam considerá-los como sendo a própria religião. Hoje o preconceito continua forte a qualquer tipo de manifestação que tenha associação direta ou indireta com as religiões de matrizes africanas, e isso nos chama a responsabilidade. Chama a responsabilidade a todos os grupos que tem em sua base a percussão de origem afro-religiosa. Independente de classe, o batuque tem um chamamento ancestral, e ele também chama para a luta por respeito a diversidade.

JM - O que levou à proposta da oficina de maracatu?

CAC - Entre os objetivos, a difusão do batuque de maracatu, e da cultura popular de um modo geral. Nós acreditamos que cultura popular e tradicional é capaz de elevar a consciência e a auto-estima e isso contribui para melhorias das condições de vida das pessoas. A oficina também possibilita o ingresso de novos membros ao Coletivo AfroCaeté.

JM - Vocês acreditam que a internet e, principalmente, as redes sociais podem representar uma renovação na forma de aproximar a população e a arte?

CAC - Com abrangência ainda limitada, a internet é um importante veículo de comunicação. Para o Coletivo AfroCaeté, a internet, e especificamente as redes sociais, representa um canal acessível e direto com pessoas e grupos. O nosso blog representa hoje um dos principais documentos do grupo:
www.coletivoafrocaete.blogspot.com e no Twitter: @afrocaete


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